A B3 anunciou que vai antecipar, de forma voluntária, a divulgação de informações financeiras relacionadas à sustentabilidade com base nas normas internacionais IFRS S1 e S2. Com a decisão, a bolsa de valores se torna a quinta empresa de capital aberto do país a aderir ao chamado período de teste desses padrões e a primeira do setor financeiro a fazê-lo. A proposta é traduzir em valores monetários os riscos e as oportunidades que as mudanças climáticas podem representar para o negócio.
Atualmente, entre cerca de 700 companhias abertas no Brasil, apenas Vale, Renner, Irani e Natura adotaram a divulgação antecipada. As normas passam a ser obrigatórias a partir do exercício de 2026, com publicação dos dados em 2027. Até lá, reguladores abriram a possibilidade de adesão voluntária, justamente para que empresas testem metodologias e ajustem processos internos.
“Vamos fazer a divulgação antecipada muito numa lógica de liderar pelo exemplo. Se somos um grande incentivador e mobilizador dos novos reportes, a gente também deveria aderir a esse movimento e passar por isso de forma pioneira”, afirma Virgínia Nicolau, superintendente de sustentabilidade da B3.
A Comissão de Valores Mobiliários realizou uma pesquisa com companhias abertas e identificou que 15 pretendem se comprometer com o reporte antecipado. Essas empresas têm até 31 de dezembro deste ano para formalizar a decisão. Hoje, muitas companhias já divulgam indicadores socioambientais em relatórios integrados, mas ainda sem mensurar financeiramente os impactos da transição climática e de outros fatores ambientais sobre seus resultados.
As normas IFRS S1 e S2 buscam preencher essa lacuna. O padrão S1 trata das informações financeiras relacionadas à sustentabilidade de forma ampla, enquanto o S2 é dedicado à transição climática. Ambos conectam riscos e oportunidades às demonstrações financeiras, com estimativas de impacto no curto, médio e longo prazo.
O Brasil saiu na frente nesse processo. A CVM foi o primeiro regulador do mundo a adotar oficialmente as novas normas, em 2023. Diante da complexidade das exigências, o órgão estabeleceu um período de transição em etapas, permitindo a divulgação voluntária nos exercícios de 2024 e 2025.
Nesse contexto, a B3 iniciou no ano passado uma análise interna para identificar lacunas em relação às novas regras. Em janeiro de 2024, a companhia registrava 65% de aderência aos requisitos. Em julho deste ano, o índice chegou a 72%, indicando avanço na consolidação dos dados necessários para o reporte completo.
O papel do setor financeiro na transição climática
O setor financeiro é considerado estratégico para a transição climática por conectar o capital de investidores às empresas que precisam reduzir emissões e adaptar suas operações. No caso da B3, a atuação envolve tanto o mercado de ações quanto a negociação de títulos de dívida públicos e privados, além de serviços ligados a dados financeiros.
Por isso, a identificação de riscos e oportunidades climáticas não se limita aos efeitos diretos sobre a própria bolsa, mas também ao impacto da transição nos clientes e fornecedores que operam em seus ambientes de negociação. “A gente trabalha com os efeitos diretos [das mudanças climáticas], seja de risco ou de oportunidade, na nossa instituição, mas os mais materiais costumam vir dos efeitos da cadeia, dos nossos clientes e fornecedores”, explica Nicolau.
Segundo a executiva, os desafios são semelhantes aos enfrentados por grandes bancos. “Tem um nível de modelagem financeira que a gente tem trabalhado e que é quase paradigmático, porque ninguém nunca publicou algo assim.” Um dos cenários envolve clientes expostos a eventos climáticos extremos que, sem medidas de mitigação, podem sofrer perdas de receita, afetando volumes de negociação. Outro ponto está nos riscos de transição, ligados a mudanças regulatórias. “Se a legislação para carbono começa a trazer medidas mais severas, como que setores que são intensivos em carbono vão receber esse efeito?”, diz.
Como referência, em seu primeiro relatório S2 divulgado neste ano, a Vale estimou que mecanismos de precificação de carbono podem gerar custos de até R$ 19 bilhões no longo prazo.
Do ponto de vista operacional, a B3 também avalia riscos físicos ligados ao uso intensivo de tecnologia. A dependência de energia elétrica e de água para resfriamento de equipamentos pode representar vulnerabilidades em um cenário de eventos climáticos mais frequentes. “O risco direto da operação, quando a gente fala de tecnologia, que é dependente de energia, água para resfriamento de equipamento, ele pode não ser pequeno”, afirma Nicolau. Ao mesmo tempo, a companhia vê oportunidade na oferta de dados e soluções ligadas à sustentabilidade.
Fonte: Capital Reset
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