A expansão do biodiesel no Brasil mantém a soja no centro da matriz energética renovável e amplia as alternativas de comercialização para o produtor rural. Embora a exportação do biocombustível ainda tenha peso reduzido, o crescimento do consumo interno e o aumento do processamento da oleaginosa sustentam a demanda, especialmente em um contexto de supersafras e recordes de produção.
Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços mostram que as usinas brasileiras exportaram pouco menos de 94 mil metros cúbicos de biodiesel. O volume representa menos de 1% da produção nacional. Para Donizete Tokarski, presidente da Ubrabio, a exportação é positiva, mas não é o principal motor do setor. “Sempre é uma boa oportunidade a exportação de biocombustíveis para o país. Entretanto, não é o mercado que ainda atende uma demanda significativa”, afirmou.
Segundo ele, a estratégia mais consistente está na agregação de valor dentro do país. “O que nós precisamos é ampliar essas oportunidades para aumentar a nossa exportação, fazendo com que a gente agregue valor aos nossos produtos aqui”, explicou.
Biodiesel consolida mercado interno para a soja
O biodiesel responde por uma parcela relevante do consumo da soja brasileira. De acordo com Tokarski, cerca de 70% do biocombustível produzido no país tem origem no óleo de soja. Em termos práticos, são aproximadamente 7 bilhões de litros derivados da oleaginosa, em um universo próximo de 10 bilhões de litros anuais.
Para atender a essa demanda, a indústria processa em torno de 35 milhões de toneladas de soja por ano. “É um mercado significativo”, destacou o presidente da Ubrabio. O crescimento contínuo da produção nacional exige canais de escoamento capazes de absorver volumes crescentes de forma economicamente sustentável.
O processamento interno aparece como alternativa estratégica. “Essa oferta crescente no Brasil precisa ser cada vez mais transformada aqui em valores para a nossa sociedade”, disse Tokarski. Além de ampliar a renda no campo, o esmagamento gera empregos industriais e movimenta economias regionais, sobretudo no interior.
Desenvolvimento regional e redução da dependência externa
A presença de usinas de biodiesel e unidades de esmagamento contribui para estruturar cadeias produtivas locais. “Esses valores não são apenas o valor da exportação, mas também o valor dos trabalhos que são desenvolvidos no interior do país”, afirmou Tokarski.
Ele ressaltou que o aumento da produção amplia o mercado para o agricultor. “Quanto mais nós tivermos essa oportunidade de produção de biodiesel, mais também teremos o mercado para o produtor de soja”, explicou. Essa dinâmica tende a oferecer maior previsibilidade ao setor agrícola.
O dirigente também relacionou o avanço do biodiesel à redução da dependência externa. O Brasil ainda importa cerca de 25% do diesel consumido internamente. “Nós temos capacidade de produzir mais biodiesel e não temos capacidade de produzir diesel”, observou, ao defender a ampliação da participação do biocombustível na matriz energética.
Mistura obrigatória eleva demanda por soja
A elevação gradual da mistura de biodiesel ao diesel fóssil é apontada como principal vetor de crescimento. O país caminha para o B16 até 2026 e projeta alcançar o B20 até 2030. Para Tokarski, a base regulatória permite esse avanço. “A Lei Combustível do Futuro foi extremamente sábia”, afirmou.
Segundo ele, a legislação autoriza misturas acima de 15% desde que haja comprovação técnica. O dirigente citou a existência de veículos, caminhões e máquinas agrícolas com garantia para uso de percentuais elevados, inclusive biodiesel puro.
O impacto sobre a soja é direto. “Cada 1% de biodiesel adicionado é cerca de 700 milhões de litros”, explicou. Desse total, aproximadamente 500 milhões de litros têm origem no óleo de soja, o que exige o processamento adicional de cerca de 2,5 milhões de toneladas do grão.
Farelo amplia oferta de proteína animal
O aumento do esmagamento não beneficia apenas o mercado de energia. O farelo de soja, coproduto essencial para a cadeia de proteínas, também ganha escala. Para cada ponto percentual adicional na mistura, cerca de 2 milhões de toneladas de farelo passam a estar disponíveis.
“Além da produção do óleo, também serão 2 milhões de toneladas de farelo que estarão disponíveis no mercado para a produção de proteínas”, afirmou Tokarski. O volume reforça tanto o abastecimento interno quanto a competitividade das exportações de carnes e derivados.
Segundo ele, a maior oferta contribui para equilibrar custos e ampliar a produção de alimentos, fortalecendo o papel estratégico da soja na agroindústria brasileira.
Sustentabilidade e novos mercados em construção
A sustentabilidade da soja destinada ao biodiesel também integra o debate técnico. Tokarski mencionou a necessidade de avaliar dados do RenovaBio e dos CBios, destacando que a adesão ao programa não é obrigatória. “As empresas não são obrigadas a participar desse programa”, esclareceu.
Ele apontou desafios na rastreabilidade da matéria-prima. “Nós temos indústrias de biodiesel que adquirem matéria-prima de mais de 10.000 agricultores”, afirmou, indicando a complexidade operacional da cadeia. Ainda assim, reforçou o reconhecimento internacional do produto nacional. “A soja brasileira é altamente sustentável”, disse.
Outro mercado em perspectiva é o combustível sustentável de aviação, o SAF. “Eu tenho uma expectativa de que o SAF vai ser uma transformação muito grande na indústria brasileira”, afirmou. Produzido a partir de diferentes rotas, incluindo óleos vegetais e etanol, o combustível pode ampliar o processamento doméstico da soja.
“O SAF é um caminho para ampliar esse processamento da soja no Brasil”, explicou. Com exportações de aproximadamente 110 milhões de toneladas de soja em grão em 2025 e expectativa de continuidade do crescimento, a ampliação da industrialização aparece como estratégia central.
“Nós precisamos de dar uma destinação interna para que a gente possa ampliar a nossa industrialização nacional”, afirmou Tokarski. Para o produtor rural, o avanço de biodiesel e SAF representa diversificação de mercados, maior absorção da oferta e consolidação da soja como matéria-prima estratégica da economia brasileira.
Fonte: Notícias Agrícolas
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