Uma disputa entre setores estratégicos da economia americana, de um lado biodiesel, de outro petróleo, começa a produzir efeitos que vão além das fronteiras dos Estados Unidos. A proposta da EPA, agência ambiental do país, de ampliar o mandato de combustíveis renováveis tende a mexer com o equilíbrio global da soja, ao elevar a demanda por óleo vegetal e incentivar o processamento do grão.
A discussão ocorre dentro do RFS, o programa que estabelece metas obrigatórias de mistura de biocombustíveis aos combustíveis fósseis. Em junho de 2025, a EPA apresentou uma proposta para aumentar esses volumes de forma relevante nos próximos anos.
Pelo texto em análise, o mandato total subiria para 24,02 bilhões de galões em 2026 e 24,46 bilhões em 2027. Em 2025, a previsão é de 22,33 bilhões. O avanço mais expressivo aparece no diesel à base de biomassa, que pode saltar de 3,35 bilhões de galões em 2025 para 5,61 bilhões em 2026, alta próxima de 67%.
Caso a medida seja confirmada, a substituição estimada é de cerca de 150 mil barris por dia de diesel de origem fóssil, o equivalente a aproximadamente 2% do consumo total do combustível nos Estados Unidos.
Pressão sobre a demanda por soja
A elevação da mistura obrigatória exige mais matérias-primas para a produção de biocombustíveis. Levantamento da HedgePoint aponta que a proposta pode gerar demanda adicional de cerca de 250 milhões de galões de insumos por ano, volume que corresponde a aproximadamente 5 milhões de toneladas de soja processada.
Esse montante representa algo em torno de 4% da produção atual de soja americana. Na prática, reforça o mercado interno do país e tende a redirecionar parte da oferta que hoje abastece o comércio internacional.
O movimento já começa a redesenhar a dinâmica global. A expectativa é de expansão da capacidade de esmagamento nos Estados Unidos, que pode sair de 69,4 milhões para 74,5 milhões de toneladas até 2026.
Com mais soja sendo processada, cresce a oferta de óleo, principal insumo para biodiesel e diesel renovável. O reflexo mais imediato tende a aparecer nos preços desse derivado, mas não para por aí. O complexo da soja como um todo, incluindo farelo e grão, entra na mesma engrenagem.
O aumento do esmagamento também amplia a produção de farelo, base da ração animal. Caso as exportações americanas não acompanhem esse crescimento, há espaço para pressão sobre os preços do produto, o que pode intensificar a concorrência com países como o Brasil no mercado global de alimentação animal.
Ao mesmo tempo, o maior consumo doméstico de soja nos Estados Unidos reduz a disponibilidade do grão para exportação. Esse ajuste altera fluxos comerciais e reforça o peso da política energética americana na formação de preços agrícolas no mundo.
Outro ponto relevante está na forma de contabilização dos mandatos. A proposta prevê mudanças no uso dos RINs, certificados atribuídos a cada galão de biocombustível produzido.
Pelas regras em discussão, biocombustíveis feitos com matérias-primas importadas, como óleo de cozinha usado da China ou sebo bovino do Brasil, passariam a gerar apenas metade dos créditos em comparação com aqueles produzidos com insumos domésticos. Na prática, a medida favorece a soja cultivada nos Estados Unidos e aumenta a rentabilidade das indústrias locais de esmagamento.
Segundo a Agrinvest, o mercado acompanha de perto os desdobramentos da proposta. Investidores aguardam a definição final da EPA sobre um mandato próximo de 5,4 bilhões de galões, além da redistribuição das isenções concedidas a pequenas refinarias.
Efeito em cadeia no mercado agrícola
Para Aaron Edwards, da empresa americana Santos Springs, o impacto da medida tende a seguir uma sequência dentro do mercado. Primeiro, aparecem os efeitos nos preços do diesel renovável e dos óleos vegetais. Na sequência, o movimento alcança o farelo e, por fim, o grão de soja.
“O cenário ainda pode ser afetado pela trajetória dos preços do petróleo”, informou.
A decisão também carrega peso político. Tanto a indústria de energia quanto o agronegócio têm influência relevante nas discussões regulatórias nos Estados Unidos, o que pode alterar o ritmo e o formato da implementação.
O timing da aprovação é outro fator sensível. Caso a proposta avance antes do plantio da próxima safra americana, que começa em abril, os efeitos podem surgir rapidamente nos preços e nas decisões dos produtores. Se houver atraso, o impacto tende a ser deslocado para o ciclo seguinte.
Na avaliação de Edwards, a mudança não beneficia apenas a soja americana. Ao direcionar mais grãos para o consumo interno, os Estados Unidos podem reduzir sua presença no mercado exportador, abrindo espaço para produtores da América Latina ampliarem participação no comércio global.
“Ao destinar mais grãos para consumo interno, os Estados Unidos tendem a reduzir a oferta de soja para exportação, abrindo espaço para países da América Latina ampliarem sua presença no comércio internacional”, informou à CNN Brasil.
Em cenários de preços pressionados, acrescenta o analista, parte da produção agrícola costuma migrar para usos como combustíveis e ração animal. Esse movimento, comum em ciclos de mercado, cria novas oportunidades, mas também aumenta a volatilidade dos preços globais de grãos.
Fonte: CNN Brasil
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