O plano impulsionado pelo presidente do Brasil Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para orientar a transição global longe dos combustíveis fósseis deve incluir a participação direta da Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo). A estratégia, segundo o presidente da COP30, André Corrêa do Lago, busca dialogar com países que historicamente resistem a iniciativas desse tipo, em especial as nações árabes. Apesar de a proposta não ter entrado na decisão final da cúpula do clima em Belém, o diplomata afirma que o debate ganhou relevância inédita nesta edição.
“Ele trouxe uma nova dimensão para a COP e aumentou sua relevância política. Foi um desafio no processo, mas um acerto político ter pautado isso nas negociações”, disse à Folha de São Paulo.
Mapa do caminho terá construção técnica e diálogo amplo
Segundo Corrêa do Lago, o documento do Brasil não será uma resolução formal da ONU, mas uma construção própria do país, desenvolvida após a COP. Ele explica que o objetivo é reunir informações de várias agências e instituições — muitas delas com vieses distintos — para organizar uma base de conhecimento consistente sobre a transição energética.
“A gente tem que primeiro reunir informações de diferentes visões sobre esse processo, organizar as informações disponíveis… Vai ser uma contribuição para que o tema entre, de maneira mais racional e legítima, nas discussões de clima”, afirmou.
O desafio, agora, é convencer países a considerar e implementar as recomendações. O diplomata ressalta que não se trata de impor novas regras, mas de acelerar o que já foi decidido em anos anteriores. “Nós achamos que fazer coisas com base nas decisões que já aconteceram é o que realmente o momento exige”, disse. Para ele, os países adotarão o plano “se eles acharem que vão se dar bem”.
Opep será consultada para reduzir resistência árabe
Como forma de diminuir tensões e ampliar o alcance político da proposta, o Brasil quer ouvir diretamente a Opep. A participação do cartel deve contribuir para aproximar o debate das realidades econômicas dos países petroleiros.
“Nós vamos aproveitar a Opep para ser uma das fontes de informações e discussões”, afirmou.
Durante a COP no Brasil, mais de 80 países rejeitaram a inclusão do mapa do caminho no texto final. A Arábia Saudita liderou a resistência. Apesar disso, Corrêa do Lago destaca que o país tem forte capacidade técnica e compreensão profunda das consequências econômicas da transição energética. Segundo ele, os sauditas já desenvolvem estratégias para diversificar sua economia e reduzir a dependência da venda de petróleo.
Ele citou a mudança estrutural prevista no setor de transportes como exemplo de transformação inevitável: a eletrificação da frota global tende a reduzir quase pela metade o consumo de petróleo destinado a combustíveis. Mesmo assim, os árabes ainda resistem a incluir o tema em documentos oficiais.
Soberania é ponto sensível para grandes economias emergentes
Ao comentar essa resistência, o presidente da COP30 afirmou que países como Brasil, China e Índia tradicionalmente rejeitam regras internacionais que possam restringir seus modelos de desenvolvimento. Essa preocupação histórica, segundo ele, também influencia a posição dos árabes.
“A maioria dos países em desenvolvimento… não aceita uma regra internacional que restrinja suas opções de desenvolvimento”, explicou.
Negociações tensas e risco de colapso no acordo
Corrêa do Lago conta que, ao longo das discussões, houve momentos de risco real de ruptura. Países fortemente contrários ao plano brasileiro afirmaram que a inclusão do tema poderia implodir o “pacote” de decisões da COP. Representantes europeus também manifestaram preocupação semelhante.
O diplomata relata que a estratégia da presidência da COP foi estimular que grupos divergentes se reunissem para buscar consensos. A plenária final, por exemplo, contou com reuniões paralelas que se estenderam por 17 horas. “A gente insistiu muito que… deviam propor soluções que viessem dos países”, afirmou.
Lula atuou diretamente para destravar impasses
O presidente Lula também precisou intervir. “Sim, várias [vezes]”, respondeu Corrêa do Lago quando questionado sobre ter solicitado apoio do chefe do Executivo. Segundo ele, Lula atuou inclusive durante o G20 na África do Sul, conversando com líderes internacionais para tentar reduzir tensões.
Incêndio atrasou negociações e prejudicou cronograma
Um incêndio no pavilhão da COP adiou as discussões por mais de seis horas, o que comprometeu o objetivo de concluir o encontro ainda na sexta-feira. Apesar do imprevisto, o diplomata afirmou que a situação foi “muito bem manejada”.
Ausência dos EUA enfraqueceu ambição dos países desenvolvidos
A falta de participação dos Estados Unidos foi analisada de formas distintas pelas delegações. Segundo Corrêa do Lago, alguns países acreditavam que a ausência evitaria retrocessos; outros, porém, sentiram falta do peso político americano para fortalecer a ambição climática do bloco desenvolvido.
China teve postura construtiva na COP
Ele destacou que a China, um dos maiores emissores do mundo, atuou de maneira “extraordinariamente construtiva” durante as negociações.
Fonte: Folha de São Paulo
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