O Brasil deve iniciar em maio uma nova etapa de testes voltados ao aumento da mistura de biodiesel no diesel. A iniciativa parte de pesquisadores do Instituto Tecnológico de Mauá e busca avaliar a viabilidade técnica de elevar o percentual atual de 15% para até 20%, em um cenário marcado por pressões externas no mercado de energia.
O movimento ocorre em meio à crise energética global associada à guerra no Irã, que tem levado o país a rever estratégias e reduzir a dependência de combustíveis fósseis importados, como o petróleo. A ampliação do uso de biocombustíveis aparece como alternativa relevante dentro dessa agenda.
Renato Romio, gerente da divisão de veículos do instituto, afirmou que o cronograma prevê o início das atividades ainda em maio. “A ideia é começar em maio”, disse Romio à Reuters, durante evento realizado em São Paulo por entidades do setor.
O Brasil já ocupa posição de destaque na produção de biocombustíveis, com base em matérias-primas como soja e cana-de-açúcar. Atualmente, a legislação determina mistura obrigatória de 15% de biodiesel ao diesel e de 30% de etanol anidro à gasolina.
Primeira fase foca no desempenho dos motores
Na etapa inicial, os testes devem comparar diferentes proporções de biodiesel, com foco nas misturas B15 e B20. A proposta é observar como os motores reagem a esses níveis, identificando possíveis impactos no funcionamento e na durabilidade dos componentes.
Segundo Romio, a instalação do primeiro motor de testes está prevista para o próximo mês. Já os combustíveis que serão utilizados nas análises devem ser entregues na última semana de maio.
Os ensaios terão duração de aproximadamente 300 horas. Durante esse período, os pesquisadores vão monitorar aspectos como o entupimento de filtros, o comportamento do sistema de injeção e as condições do bico injetor. Esses fatores são considerados críticos para avaliar a viabilidade técnica de ampliar o percentual de biodiesel.
A segunda fase dos estudos deve avançar sobre outro ponto sensível, as emissões de poluentes. Nessa etapa, serão analisadas misturas com diferentes proporções, incluindo combinações com 7% e 25% de biodiesel no diesel.
Setor vê potencial de avanço regulatório
A realização dos testes é vista como um sinal positivo por representantes da indústria. A avaliação técnica é considerada essencial para dar respaldo a eventuais mudanças nas regras que definem os percentuais obrigatórios de mistura no país.
Durante o mesmo evento, o diretor de economia e assuntos regulatórios da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), Daniel Amaral, destacou o alcance da iniciativa.
“Porque é um conjunto de testes bastante amplo, bastante bem discutido entre todas as entidades que estão relacionadas à questão da produção e do uso de biodiesel e que certamente vai abrir as portas para misturas superiores a B15 até o B20, o que traz um cenário bastante promissor para o setor”, disse Amaral.
Ele reforçou que os estudos envolvem diferentes agentes da cadeia produtiva, o que amplia a consistência dos resultados e reduz incertezas técnicas. “Trata-se de um conjunto bastante abrangente de testes, amplamente discutido por todas as entidades relacionadas à produção e ao uso do biodiesel”, afirmou.
“Certamente abrirá caminho para misturas acima de B15 e até B20, o que representa um cenário muito promissor para o setor.”
Contexto energético pressiona decisões
A discussão sobre o aumento da mistura de biodiesel não ocorre de forma isolada. A instabilidade no mercado internacional de energia tem pressionado países importadores a buscar maior autonomia, especialmente diante da volatilidade nos preços do petróleo.
No caso brasileiro, o avanço dos biocombustíveis também dialoga com metas ambientais e com a estrutura já consolidada de produção agrícola. A cadeia de soja, por exemplo, tem papel central no fornecimento de matéria-prima para o biodiesel.
A eventual elevação para B20 dependerá dos resultados técnicos obtidos nos testes, além de avaliações regulatórias e econômicas. Ainda assim, a abertura dessa nova rodada de estudos sinaliza um movimento consistente na direção de ampliar o uso de fontes renováveis na matriz energética.
Se confirmada a viabilidade, a mudança poderá ter impacto direto tanto na indústria quanto no consumidor final, influenciando custos, logística e padrões de emissão no país.
Fonte: G1
Foto: https://br.freepik.com/fotos-gratis/diferentes-pistolas-de-combustivel-em-algum-lugar-na-cidade-de-amsterda_25868075.htm

