Pela primeira vez, a União Europeia produziu mais eletricidade a partir das energias eólica e solar do que por meio de combustíveis fósseis. O dado consta no relatório European Electricity Review, elaborado pelo centro de estudos Ember e divulgado nesta quinta-feira (22). Segundo o documento, as duas fontes renováveis responderam juntas por 30% da geração elétrica do bloco em 2025, enquanto as fontes fósseis ficaram com 29%.
O levantamento considera dados de produção e demanda de energia dos 27 países que integram a UE e confirma uma mudança estrutural no sistema elétrico europeu. O avanço ocorre em meio a um cenário de instabilidade geopolítica e de pressão sobre os preços da energia, fatores que têm acelerado o debate sobre segurança energética no continente.
“Este momento histórico mostra a rapidez com que a UE evolui para um sistema baseado nas energias eólica e solar”, afirmou Beatrice Petrovich, autora do relatório. “Enquanto a dependência de energias fósseis alimenta a instabilidade no mundo, os desafios da transição para as energias limpas são mais evidentes do que nunca.”
Energia solar lidera crescimento da geração renovável
De acordo com o Ember, o principal motor dessa transformação foi a energia solar. A produção cresceu mais de 20% pelo quarto ano consecutivo e alcançou participação recorde de 13% na eletricidade gerada na União Europeia. O desempenho permitiu que a fonte superasse, pela primeira vez, tanto a geração das usinas termelétricas a carvão quanto a das hidrelétricas.
A expansão reflete a rápida instalação de painéis solares em residências, empresas e grandes parques fotovoltaicos, impulsionada por políticas de incentivo e pela redução dos custos da tecnologia. Em vários países do bloco, a energia solar já ocupa posição central no planejamento energético de médio e longo prazo.
A energia eólica manteve participação relevante e respondeu por 16,9% da eletricidade produzida em 2025. Apesar disso, houve uma leve queda em relação ao ano anterior, atribuída à menor intensidade dos ventos no início do ano passado. Ainda assim, a fonte segue como um dos pilares da matriz elétrica europeia.
Outras fontes renováveis apresentaram desempenho mais modesto. A geração hidrelétrica representou 11,7% do total, percentual inferior ao registrado em 2024. A redução está associada ao menor volume de chuvas em diversas regiões do continente, o que afetou a capacidade de produção das usinas.
Carvão atinge mínima histórica, mas gás segue dominante
O relatório mostra que a eletricidade gerada a partir do carvão caiu para 9,2% em 2025, novo patamar mínimo após anos de retração contínua. Em 19 países da União Europeia, menos de 5% da eletricidade teve origem nessa fonte, considerada uma das mais poluentes do sistema energético.
Apesar da queda do carvão, o Ember alerta para a permanência de uma forte dependência do gás natural. Em 2025, o combustível respondeu por 16,7% da geração elétrica do bloco, mantendo-se como a principal fonte fóssil utilizada.
“O aumento da produção de energia a partir do gás, juntamente com a redução da produção hidrelétrica em 2025, aumentou a fatura de importação de gás fóssil da UE em 16% e provocou um aumento dos preços nos mercados de eletricidade”, informou o centro de estudos.
O cenário expõe vulnerabilidades estratégicas. Segundo o Ember, a dependência do gás mantém a União Europeia exposta a choques externos e a pressões políticas. O relatório menciona o risco de “chantagem energética por parte dos exportadores de energias fósseis”, em referência à relação com o gás russo e às cobranças do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para que países europeus ampliem a compra de gás e petróleo norte-americanos.
Para os autores do estudo, os números de 2025 indicam que a transição energética está em curso, mas ainda enfrenta obstáculos. A expansão acelerada das fontes eólica e solar reduz emissões e aumenta a autonomia energética, porém a dependência do gás e as variações climáticas seguem como desafios centrais para o sistema elétrico europeu.
O relatório reforça que investimentos em redes, armazenamento e eficiência serão decisivos para consolidar a mudança estrutural observada no bloco europeu.
Fonte: Isto É
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