Jovens da América Latina e do Caribe participaram, na segunda-feira (25), em Brasília, da abertura do Fórum de Juventudes para a Transformação dos Sistemas Agroalimentares. A iniciativa integra o calendário de consultas da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) que antecedem a 39ª Conferência Regional da entidade, programada para ocorrer entre os dias 2 e 6 de março, também na capital federal.
Durante o evento, o representante regional da FAO para a América Latina e o Caribe, Rene Orellana, ressaltou que a combinação de políticas sociais e produtivas foi fundamental para a retirada do Brasil do Mapa da Fome da ONU pela segunda vez, em julho de 2025. Segundo ele, programas de transferência de renda, ações de alimentação escolar, incentivo à agricultura familiar, capacitação técnica e ampliação do crédito tiveram impacto direto na segurança alimentar do país.
“Toda essa política implementada nos últimos anos tem fortalecido a segurança alimentar do Brasil, que dá o exemplo porque são políticas integrais, holísticas, que favorecem o consumo, o mercado e também os produtores e as alianças entre os grandes, médios e pequenos produtores, o que é muito importante para complementaridade”, afirmou Orellana.
Fórum integra processo preparatório da FAO
O encontro reúne jovens do meio rural de diferentes países da região e faz parte de um processo mais amplo de escuta da sociedade civil. A proposta é incorporar as experiências e demandas das juventudes aos debates da Conferência Regional da FAO, que ocorre a cada dois anos e define prioridades para o enfrentamento da fome e da má nutrição.
De acordo com Orellana, as contribuições apresentadas no fórum serão consolidadas em um documento final, que servirá como subsídio às discussões oficiais. “Nós esperamos que essa experiência e esse conhecimento que eles têm sejam investidos em produzir um documento que guie e que dê luzes aos documentos oficiais que serão discutidos na conferência regional que será realizada em março”, disse.
Soluções locais e políticas públicas
A secretária Nacional de Juventude da Secretaria-Geral da Presidência, Vitória Genuino, participou da abertura e defendeu que políticas públicas considerem soluções já desenvolvidas nos territórios. Para ela, iniciativas conduzidas por jovens e movimentos sociais podem inspirar ações governamentais mais efetivas no combate à fome.
“A gente pode fazer esses enfrentamentos [de problemas] a partir de tecnologia social existente. Essa troca de realidades e de experiências é muito importante para a produção de políticas públicas inspiradas no que a sociedade civil já faz”, afirmou.
Vitória Genuino citou ainda políticas federais voltadas à juventude rural, como programas de assistência técnica e extensão rural, além de iniciativas direcionadas ao enfrentamento da insegurança alimentar em áreas periféricas, a exemplo do Programa Cozinha Solidária, coordenado pelo Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome.
Participação juvenil nos espaços de decisão
A presença de jovens nos espaços de formulação de políticas foi apontada como um desafio recorrente. Representante da Guatemala e da Liga Continental das Mulheres Indígenas e Camponesas da América Latina, Hilda López destacou que a juventude ainda encontra dificuldades para participar das decisões relacionadas à segurança alimentar e à crise climática.
“Tendo esse espaço oportuno, existe muita habilidade, muito talento e muita criatividade para que a juventude possa realizar mudanças significativas daquilo que estamos vivendo pela falta de tomada de decisão a partir das contribuições da juventude”, afirmou.
O representante da FAO no Brasil, Jorge Meza, reforçou que o protagonismo juvenil é essencial para o aprimoramento das políticas públicas nos países da região. “Os jovens precisam ocupar espaços como este para que eles se envolvam de maneira ordenada, sistêmica e propositiva, indo além da simples discussão sobre o desenvolvimento do setor rural, agrícola e o combate à pobreza”, disse.
Barreiras estruturais e caminhos possíveis
Ao longo do fórum, os participantes relataram dificuldades comuns, como acesso limitado a recursos produtivos, financiamento, educação e oportunidades de trabalho decente. Esses fatores, segundo os jovens, contribuem para o êxodo rural e para o enfraquecimento das economias locais.
Eduardo Peralta, coordenador de uma rede regional de jovens indígenas da América Latina e do Caribe e morador da região andina de Otavalo, no Equador, destacou a relação entre preservação ambiental e soberania alimentar. “É importante cuidar da Mãe Terra, a Pachamama, porque ela nos concede o alimento; é de onde tudo sai, a raiz de onde tudo brota. Com essas sementes, nós também vivemos. Elas são a origem de onde tudo provém”, afirmou.
Sobre a permanência da juventude no campo, Jorge Meza defendeu a ampliação do acesso à tecnologia e à inovação. “O Estado tem que ajudar a gerar oportunidades para que os jovens fiquem no meio rural. O jovem está muito mais predisposto a trabalhar em contextos de inovação e de tecnologia. Se levadas ao setor rural, eles podem fazer parte desse processo de modernização das atividades produtivas”, disse.
Declaração conjunta e próximos passos
Além da consulta às juventudes, a FAO realiza encontros com agricultores familiares, comunidades camponesas, povos indígenas, afrodescendentes, pescadores, pastores e consumidores. Nas últimas semanas, também ocorreram consultas com representantes dos setores privado, científico e acadêmico.
Ao final do processo, será elaborada uma declaração conjunta da sociedade civil, que será apresentada aos Estados-membros da FAO durante a 39ª Conferência Regional. O documento deverá contribuir para a definição das prioridades do biênio 2026-2027, com foco na erradicação da fome, na segurança alimentar e na promoção de sistemas agroalimentares sustentáveis na América Latina e no Caribe.
Fonte: Agência Brasil
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