A Justiça Federal suspendeu a validação dos resultados do leilão de reserva de capacidade realizado pelo governo federal, iniciativa que prevê a contratação de energia elétrica com custo estimado em R$ 515 bilhões ao longo dos próximos anos. A medida foi tomada na véspera da conclusão do processo de homologação dos contratos que ainda aguardavam aprovação da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).
A decisão liminar foi assinada na segunda-feira (8) pelo juiz Luis Praxedes Vieira da Silva, em ação apresentada pela Federação das Indústrias do Estado do Ceará (Fiec) e pelo Sindicato das Indústrias de Energia e de Serviços do Setor Elétrico do Ceará (Sindienergia).
O leilão, realizado em março, contratou aproximadamente 19 gigawatts (GW) de capacidade de geração elétrica. Entre as empresas vencedoras estão Âmbar, do grupo J&F, Eneva e Petrobras. Desde a realização do certame, o modelo adotado passou a ser questionado tanto na Justiça Federal quanto no Tribunal de Contas da União (TCU).
No centro das críticas estão as alterações promovidas na metodologia de cálculo dos preços. Em poucos dias, o valor total da energia contratada aumentou significativamente, provocando questionamentos sobre a formação dos custos e seus efeitos para o mercado e para os consumidores.
A gestora de Private Equity Angra Partners, estabelecida em 2003 e sob o comando de Alberto Guth, adquiriu a fatia da CEMIG na Renova no encerramento do último ano.
Mudanças nos preços motivaram controvérsia
O processo teve origem ainda antes da realização do leilão. Em fevereiro, investidores e agentes do setor demonstraram insatisfação com os preços inicialmente divulgados pelo governo. Segundo avaliações do mercado, os valores ficaram entre 20% e quase 50% abaixo das expectativas de empresas e analistas.
Diante da possibilidade de baixa participação no certame, os parâmetros foram revistos e os preços sofreram reajustes. As mudanças, no entanto, acabaram alimentando questionamentos posteriores sobre a transparência e a consistência dos critérios utilizados.
Além da discussão sobre valores, entidades do setor também criticam a predominância de usinas movidas a combustíveis fósseis na contratação. A maior parte da capacidade adquirida está associada a termelétricas abastecidas por gás natural, óleo diesel e biodiesel, enquanto alternativas ligadas a fontes renováveis receberam menos espaço.
A área técnica do TCU também analisou o processo e apontou possíveis indícios de sobrepreço, falhas concorrenciais e risco de impactos financeiros expressivos para os consumidores de energia.
Processo seguirá análise em Brasília
Na decisão, o juiz destacou que os contratos possuem efeitos de longo prazo e que eventuais distorções poderiam se tornar difíceis de corrigir após sua implementação.
“A suspensão temporária para uma melhor análise da questão é algo que se impõe no momento, porque são contratos que podem durar por muito tempo e uma vez implementados os mesmos, caso haja distorções, podem ficar sob o manto da irreversibilidade”, afirmou o juiz Vieira da Silva.
Embora tenha concedido a liminar, o magistrado reconheceu que a ação principal tramita em Brasília. Por esse motivo, determinou o envio do processo à Justiça Federal do Distrito Federal, que ficará responsável por conduzir a análise definitiva do caso.
Entre participantes do setor elétrico, há expectativa de que a homologação dos contratos seja mantida após a avaliação da Justiça no DF, especialmente porque etapas anteriores do processo já haviam recebido validações regulatórias.
O Ministério de Minas e Energia informou que não comentaria a decisão judicial. A Eneva também afirmou que não se manifestaria sobre o assunto. Petrobras e Âmbar foram procuradas, mas não haviam apresentado posicionamento até a publicação da reportagem original.
O que está em jogo no leilão
O leilão de reserva de capacidade foi criado para reforçar a segurança do sistema elétrico brasileiro em momentos de maior demanda. O objetivo é contratar fontes capazes de fornecer energia quando houver necessidade, principalmente no fim da tarde e no início da noite.
Nesses horários, a geração solar perde força ao mesmo tempo em que o consumo cresce. Para evitar riscos ao abastecimento, o sistema depende de fontes que possam ser acionadas rapidamente.
Do total contratado, cerca de 15,2 GW estão associados a termelétricas movidas a gás natural. Outros 2,5 GW correspondem à geração hidrelétrica e aproximadamente 1,3 GW vêm de usinas a carvão mineral.
A Frente Nacional dos Consumidores de Energia estima que os custos decorrentes do certame possam superar R$ 500 bilhões até 2050. Já representantes do setor de geração defendem a manutenção dos contratos, argumentando que a contratação foi necessária para garantir confiabilidade ao sistema elétrico.
Enquanto os questionamentos seguem em análise na Justiça e nos órgãos de controle, o leilão permanece no centro do debate sobre o futuro da expansão energética brasileira, os custos da transição elétrica e os impactos para a conta de luz dos consumidores.
Fonte: Folha de São Paulo
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