O presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a destacar o papel estratégico dos biocombustíveis brasileiros durante a abertura da Feira Industrial de Hannover, realizada nesta segunda-feira (20), na Alemanha. O evento, considerado o maior do setor no mundo, tem o Brasil como país convidado em sua 79ª edição. Ao longo do dia, Lula reforçou a defesa do etanol e do biodiesel como alternativas viáveis na transição energética e criticou regras adotadas pela União Europeia que limitam o uso desses produtos.
Durante o 42º Encontro Econômico Brasil-Alemanha, o presidente procurou responder a preocupações recorrentes de países europeus, especialmente em relação ao impacto da produção de biocombustíveis sobre a segurança alimentar e o meio ambiente. Segundo ele, o Brasil dispõe de tecnologia agrícola avançada e ampla disponibilidade de terras para expandir a produção sem comprometer o abastecimento de alimentos.
“Se tem uma coisa que nós temos de sobra é terra fértil, agricultável para produzir. E quem quiser ir no Brasil nos ajudar, nós estamos colocando à disposição 40 milhões de hectares de terras degradadas que nós queremos recuperar”, afirmou.
A agenda na Alemanha tem sido marcada pela tentativa de ampliar o espaço dos biocombustíveis brasileiros no mercado europeu. Em coletiva de imprensa conjunta, Lula classificou como “ideológica” a regulação do bloco, que restringe o uso de biocombustíveis produzidos a partir de culturas alimentares. Uma revisão em discussão pode equiparar o biodiesel de soja ao óleo de palma, o que, na prática, impediria sua comercialização nos países europeus a partir de 2030.
Meta antecipada e trajetória histórica
Ao defender a política energética brasileira, Lula destacou que o país já atingiu, em 2025, a marca de 50% de fontes renováveis em sua matriz energética, índice que a União Europeia pretende alcançar apenas em 2050. O presidente também relembrou o histórico brasileiro no setor, iniciado ainda na década de 1970 com programas voltados ao uso de etanol.
A presença na feira incluiu visitas a estandes de empresas brasileiras e multinacionais. Lula chegou a subir em um caminhão desenvolvido no Brasil, movido a biocombustível, apresentado durante o evento. Em tom descontraído, comentou a ausência do primeiro-ministro alemão, Friedrich Merz, em parte da programação conjunta.
O encontro entre os dois líderes teve momentos de convergência. Merz elogiou os esforços brasileiros na preservação ambiental e destacou o papel do país em discussões climáticas recentes, como a COP30. “Respeitamos profundamente a forma como o senhor lida com esse valioso tesouro da humanidade”, disse, referindo-se à Amazônia.
O premiê alemão também demonstrou interesse em analisar o modelo energético brasileiro. Segundo ele, a transição para uma economia de baixo carbono não deve depender exclusivamente da eletrificação da frota global. “Temos mais de um bilhão de veículos que continuarão rodando. Não vai dar para resolver isso só com carro elétrico”, afirmou.
Negociações econômicas e entraves históricos
Apesar da afinidade em temas energéticos, a pauta dos biocombustíveis não foi incorporada à declaração final das Consultas Intergovernamentais de Alto Nível, mecanismo bilateral que reúne Brasil e Alemanha. Ainda assim, os dois governos concordaram em intensificar negociações para um acordo que evite a bitributação entre os países.
Essa questão, em discussão desde os anos 2000, é apontada como um dos principais obstáculos para empresas que atuam em ambos os mercados, além de afetar trabalhadores e estudantes que vivem no exterior. O tema é considerado prioritário por representantes da indústria, embora não houvesse expectativa de solução imediata durante a visita.
Merz também mencionou o acordo entre União Europeia e Mercosul, destacando sua relevância em um cenário global marcado por mudanças geopolíticas e econômicas. Lula, por sua vez, adotou um tom mais crítico ao abordar conflitos internacionais, ampliando comentários feitos anteriormente sobre tensões envolvendo Estados Unidos e Israel.
Agenda movimentada e aproximação com empresas
Após os discursos, Lula percorreu o pavilhão brasileiro da feira, que reúne 140 empresas e startups, número recorde para o país no evento. A movimentação chamou atenção de visitantes e expositores, com paradas em estandes de grandes companhias e instituições industriais.
Entre as visitas, o presidente entrou em um protótipo de veículo aéreo desenvolvido por uma fabricante brasileira e passou por espaços de empresas dos setores automotivo, energético e de tecnologia. Também destacou a atuação de instituições voltadas à formação profissional.
“O Brasil é um país que quer se transformar em uma economia rica. Nós cansamos de ser tratados como um país pobre”, afirmou.
No encerramento do dia, Lula seguiu para uma visita privada à sede de uma montadora em Wolfsburg, acompanhado por líderes sindicais. O momento teve caráter simbólico, já que, em uma visita anterior ao local, o presidente ainda atuava como metalúrgico.
A viagem à Europa, iniciada em Barcelona na semana anterior, termina nesta terça-feira (21), com uma parada em Lisboa antes do retorno ao Brasil.
Fonte: Folha de São Paulo
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