O fortalecimento do mercado interno pode se tornar o principal motor da economia brasileira em meio ao agravamento do conflito no Oriente Médio e a um cenário internacional de incertezas. A avaliação é do secretário de Desenvolvimento Industrial, Inovação, Comércio e Serviços do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), Uallace Moreira Lima.
Segundo ele, o Brasil dispõe de instrumentos de política pública capazes de estimular consumo e investimento, dois fatores considerados essenciais para sustentar o crescimento econômico em momentos de turbulência global. Entre as iniciativas citadas estão a política industrial Nova Indústria Brasil e o programa Move Brasil, voltado à renovação da frota de caminhões.
Moreira também criticou a manutenção da taxa básica de juros em patamar elevado. Na avaliação do secretário, a decisão do Banco Central de manter a Selic em 15% ao ano por período prolongado trouxe efeitos negativos para a economia.
Ao participar do videocast C-Level Entrevista, da Folha, ele afirmou que juros elevados tendem a reduzir o dinamismo do mercado interno e a pressionar as contas públicas.
Política industrial e novos investimentos
O governo federal anunciou recentemente um reforço de R$ 70 bilhões para a política industrial Nova Indústria Brasil. Quando foi lançada, a iniciativa recebeu críticas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que cobrava metas mais claras e prazos definidos.
De acordo com Moreira, a política passou por ajustes após essa cobrança. O vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, coordenou um trabalho de revisão envolvendo diferentes ministérios.
“Quando o presidente Lula pediu mais foco na política, e ele tinha muita razão, nosso vice-presidente e ministro Geraldo Alckmin coordenou um amplo trabalho com os ministérios. Foi feito um aprimoramento em que se criou uma meta intermediária para 2026, final do governo, e uma meta para 2033.”
Segundo o secretário, políticas industriais exigem prazos longos para que investimentos amadureçam. O volume inicial previsto era de R$ 300 bilhões. Atualmente, o plano Mais Produção reúne R$ 643 bilhões já contratados, valor que será ampliado com o novo aporte do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
Parte desses recursos está sendo direcionada para projetos ligados à transição energética e à modernização da indústria brasileira. O secretário cita como exemplo a produção de veículos híbridos e elétricos no país, além do aumento de financiamentos para o setor de biocombustíveis.
Em 2024, a indústria de transformação registrou crescimento de 3,8% e teve papel relevante na geração de empregos. No ano seguinte, porém, o setor apresentou retração. Para Moreira, a manutenção da Selic em 15% ajudou a explicar o desempenho mais fraco.
Juros altos e mercado interno
O secretário avalia que houve erro na condução da política monetária ao prolongar o período de juros elevados.
“Houve um erro na condução da política monetária em prolongar uma taxa de juros de 15%. Nós já tínhamos solucionado a questão da inflação com a safra recorde, com o câmbio equilibrado.”
Ele afirma que, diante do cenário externo desfavorável, o mercado interno deve ganhar importância na estratégia de crescimento econômico. O consumo das famílias responde por cerca de 63% do Produto Interno Bruto (PIB), indicador que mede o conjunto de bens e serviços produzidos no país.
“Diante desse cenário internacional, eu acho que a grande saída para a economia brasileira é o mercado interno. Do ponto de vista da demanda agregada, 63% do PIB é consumo das famílias.”
Para o secretário, medidas como a eventual redução da taxa de juros e mudanças na tributação sobre renda podem influenciar positivamente o crescimento.
“Se a gente tiver redução de juros, e agora com a questão da isenção do Imposto de Renda, a gente vai avaliar o efeito que isso tem de impacto no crescimento econômico.”
Ele acrescenta que políticas públicas já em curso podem reforçar esse movimento, desde que acompanhadas por um ambiente monetário menos restritivo.
Crédito e política industrial
Moreira também argumenta que taxas de juros muito elevadas acabam limitando investimentos produtivos, sobretudo em setores industriais que dependem de crédito de longo prazo.
Uma política monetária restritiva, segundo ele, dificulta o fortalecimento da indústria, especialmente nos segmentos de bens de consumo duráveis e de bens de capital.
“Crédito é fundamental para a indústria de bens de consumo duráveis e de bens de capital. Você inviabiliza o setor de bens de capital, você inviabiliza o investimento.”
Ele acrescenta que juros elevados reduzem o incentivo ao investimento produtivo, já que aplicações financeiras podem oferecer retorno maior com menor risco.
Debate sobre política monetária
Durante a entrevista, o secretário citou uma avaliação feita pelo economista e prêmio Nobel Joseph Stiglitz sobre a indústria brasileira. O comentário ocorreu em reunião com o vice-presidente Geraldo Alckmin.
“Ele fala assim: ‘A indústria brasileira é a mais resiliente do mundo. Nunca vi algo parecido. Sobreviver à insanidade da política de juros deste país, nenhuma outra indústria no mundo sobreviveria’.”
Moreira afirmou que sua crítica não é direcionada pessoalmente ao presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, mas ao debate mais amplo sobre política monetária no país.
“O que eu trago aqui não é uma crítica pessoal, é uma crítica ao debate sobre política monetária. A condução da política monetária dessa forma não é só na gestão do presidente Galípolo.”
Importações e competitividade
O secretário também comentou a decisão do governo de rever o aumento do imposto de importação sobre produtos como celulares e notebooks. A medida havia sido aprovada pelo Comitê Executivo da Câmara de Comércio Exterior (Gecex), formado por dez ministérios.
De acordo com Moreira, a resolução já previa a possibilidade de revisão. Para ele, a mudança faz parte do processo de avaliação de políticas públicas.
“O imposto de importação, antes de tudo, não é arrecadatório, é regulatório.”
Na visão do secretário, esse tipo de tributo serve para ajustar condições de competitividade da indústria nacional e estimular a geração de empregos.
Debate sobre jornada de trabalho
Moreira também comentou discussões recentes sobre o possível fim da escala de trabalho 6×1. Para ele, o tema deve ser analisado com cautela e levando em conta diferenças entre setores da economia.
“A gente defende o debate sobre a questão da jornada de trabalho discutindo casos específicos. É sempre um erro generalizar o debate econômico.”
Segundo o secretário, a redução da jornada tem sido discutida em diversos países e pode ampliar o tempo livre dos trabalhadores, o que abre espaço tanto para atividades pessoais quanto para iniciativas empreendedoras.
Fonte: Folha de São Paulo
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