A criação de abelhas tem deixado de ser apenas uma atividade ligada ao meio rural para se tornar uma alternativa de empreendedorismo e geração de renda. No Espírito Santo, mulheres de diferentes formações profissionais encontraram na apicultura e na meliponicultura um caminho para construir negócios próprios, ampliar a autonomia financeira e desenvolver novos projetos de vida.
Entre analistas de sistemas, advogadas, fisioterapeutas e técnicas de enfermagem, a trajetória apresenta um ponto em comum: o investimento em qualificação. Cursos, mentorias, treinamentos e participação em associações do setor foram fundamentais para transformar um interesse pessoal em atividade econômica.
A experiência dessas empreendedoras também mostra como a cadeia produtiva das abelhas vai além da venda de mel. Cosméticos, própolis, velas, bebidas artesanais e serviços relacionados à polinização ampliam as oportunidades para quem decide atuar no segmento.
Persistência transformou paixão em profissão
A técnica de enfermagem Kátia dos Santos enfrentou um dos maiores desafios possíveis para quem trabalha com abelhas. Após sofrer um choque anafilático provocado por uma picada, precisou passar por dois anos de tratamento. Mesmo diante da gravidade do quadro, decidiu permanecer na atividade.
“Eu fiz o tratamento para não precisar deixar a apicultura”.
Segundo Kátia, a recuperação exigiu disciplina e persistência.
“Se eu não fizesse tratamento, seria inviável. Eu tomava o próprio veneno da abelha uma vez por semana em forma de injeção. Fui persistente. Tem que gostar. Porque depois que você entra nessa área, não quer mais sair”.
Hoje, ela atua na criação de abelhas, produz cosméticos à base de mel e própolis e ministra capacitações em diferentes estados para pessoas interessadas em ingressar no setor.
Da tecnologia para o universo das abelhas
A analista e desenvolvedora de sistemas Luana Pimentel iniciou sua relação com as abelhas após se mudar para uma residência em Aracruz. O contato inicial surgiu por curiosidade, mas acabou se transformando em uma atividade que ocupa parte importante da sua rotina.
“Sou da área de programação, não tem nada a ver com natureza. Mas fui me envolvendo e me apaixonando por esse mundo das abelhas”.
Ao longo dos anos, Luana participou de cursos, treinamentos e programas de empreendedorismo. Atualmente, cursa pós-graduação em Gestão do Agronegócio e planeja criar uma agroindústria familiar.
Além da produção de mel, ela investe em sabonetes, velas e bebidas artesanais. Também realiza ações de educação ambiental voltadas às abelhas nativas sem ferrão.
“As abelhas mudaram completamente a minha vida. Esses bichinhos tão pequenos fizeram coisas grandiosas e mudaram minha rota”.
Segundo a empreendedora, a valorização crescente de produtos sustentáveis fortalece o mercado.
“As pessoas querem saber a origem do que consomem. Quando você une conservação ambiental, produção artesanal e qualidade, o produto ganha valor”.
Hobby com potencial de crescimento
A advogada Eva Pires Dutra começou a criar abelhas sem ferrão há cerca de um ano e meio em uma propriedade localizada em Domingos Martins. Embora a atividade ainda seja voltada ao consumo próprio, ela já planeja ampliar a produção.
“Hoje, ainda é mais um hobby, mas o objetivo é ter uma produção comercial de mel e própolis”.
Para acelerar o aprendizado, Eva buscou capacitações e passou a integrar grupos de criadores.
“Aprendo muito com outros criadores. A troca de experiências é muito importante e nos faz crescer de forma consistente na atividade”.
Ela destaca que a expansão da atividade exige tempo para a formação das colônias.
“A produção de abelha sem ferrão é pequena. É preciso formar várias colônias para alcançar uma quantidade que permita comercialização.”
Ainda assim, acredita no potencial econômico e ambiental da meliponicultura.
“A meliponicultura é promissora não apenas pela venda de mel, própolis e outros produtos, mas também pelos serviços de polinização. Onde têm abelhas, a produção aumenta”.
Novo caminho após mudança de carreira
A fisioterapeuta Giovana Branco encontrou na apicultura uma alternativa após enfrentar um período de esgotamento profissional. A busca por soluções naturais para orientar pacientes despertou seu interesse pelo própolis verde e, posteriormente, pela criação de abelhas.
“Eu comecei a buscar algo mais natural para orientar meus pacientes. Foi assim que conheci o própolis verde e me interessei pelas abelhas”.
Com apoio de cursos, mentorias e capacitações, estruturou uma empresa e conquistou certificações para comercializar seus produtos.
O reconhecimento veio durante o Congresso Brasileiro de Apicultores e Meliponicultores, realizado em Florianópolis, quando o mel produzido pela empresa alcançou a terceira colocação nacional.
“Foi um orgulho enorme. A gente concorreu com produtores do Brasil inteiro. Isso mostrou que é possível crescer quando existe dedicação e capacitação”.
Para Giovana, o setor oferece oportunidades diversificadas para quem deseja empreender.
“A apicultura e a meliponicultura são atividades sustentáveis e lucrativas. O mel é só o começo. Existem muitas possibilidades de trabalhar com os produtos das abelhas”.
Capacitação fortalece o empreendedorismo
Além da produção de mel e derivados, a atividade contribui para a agricultura. Segundo José Roberto Gonçalves, gerente corporativo de Agropecuária da Cooabriel, as abelhas ajudam a aumentar a produtividade das lavouras de café conilon.
“As abelhas possuem uma contribuição importante nesse processo, favorecendo maior produtividade e uniformidade na maturação dos frutos das lavouras de café conilon”.
Para o Sebrae, a qualificação é um dos fatores que permitem transformar conhecimento técnico em um negócio estruturado. O analista Daywidson Stabenow afirma que o empreendedor passa a identificar oportunidades de crescimento ao desenvolver competências de gestão.
“Essas histórias mostram a força da mulher, a determinação e a capacidade de adaptação. Cada vez mais as mulheres têm buscado autonomia financeira, geração de renda e realização dos seus projetos pessoais”.
As trajetórias dessas empreendedoras mostram que a criação de abelhas pode combinar preservação ambiental, diversificação econômica e desenvolvimento profissional. Em comum, todas encontraram no conhecimento o principal instrumento para transformar um interesse pessoal em oportunidade de negócio.
Fonte: G1
Foto: https://www.magnific.com/br/fotos-gratis/fotografia-em-close-de-uma-abelha-voando-para-polinizar-flores-brancas_17463732.htm

