O plano do gonerno federal prevê zerar o desmatamento ilegal até 2030, com abordagem ampla e contribuído para a redução recente da derrubada da floresta, especialistas consultados pela InfoAmazonia durante a COP 30 apontam insuficiência na meta. Para os cientistas presentes em Belém (PA), a velocidade do aquecimento global exige medidas mais ousadas e metas mais amplas do que as adotadas atualmente pelo Brasil.
Entre os principais pontos de preocupação mencionados pelos pesquisadores estão o fato de o plano abarcar apenas o desmatamento ilegal da COP 30, deixando de fora a parcela de desmatamento que a legislação brasileira ainda permite. Além da ausência da degradação florestal nas metas governamentais, a falta de alinhamento entre as metas federais e estaduais e a inexistência de dispositivos específicos para aprimorar o controle do crédito rural. Para eles, tais lacunas reduzem a efetividade do plano em um cenário considerado emergencial.
Compromissos assumidos nas COP 27 e COP 29
A reportagem relembra também o anúncio de alcançar o desmatamento ilegal zero até 2030 feito pelo presidente Lula na COP 27, no Egito, e formalizado em janeiro de 2023 como parte da quinta fase do PPCDAM (Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal). Além disso, o plano prevê que o desmatamento legal seja compensado através da regeneração de áreas já degradadas.
Em 2024, durante a COP 29, no Azerbaijão, essa meta passou a integrar a Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC) brasileira, alinhando o país aos objetivos do Acordo de Paris para manter o aumento da temperatura global abaixo de 1,5ºC. No entanto, ainda não existe um número oficial que indique quanto desmatamento legal será permitido – uma indefinição que, segundo a pesquisadora do Imazon, Brenda Brito, já representa um problema.

Para alguns especialistas, a questão vai além
De acordo com os pesquisadores, o Brasil deveria estabelecer a meta de desmatamento total zero na COP 30, incluindo o legal, já em 2030. Essa é a avaliação do climatologista Carlos Nobre, um dos principais estudiosos do clima no país e o primeiro cientista brasileiro a alertar, ainda nos anos 1990, sobre o risco de desertificação da Amazônia, hoje conhecido como ponto de não retorno. Esse é o limiar em que o bioma perde a capacidade de se regenerar e passa a caminhar para uma transformação irreversível
Nobre alerta que a legislação atual permite desmatamento significativo, especialmente em biomas fora da Amazônia. Enquanto na região amazônica proprietários podem desmatar até 20% da área, no Pantanal o limite chega a 50%. Para o cientista, diante das mudanças climáticas aceleradas, o país não pode correr o risco de ultrapassar pontos críticos que também afetariam outros biomas, como Cerrado e Caatinga.
Ele reforça que a perda da floresta comprometeria os chamados “rios voadores”, responsáveis por transportar umidade para as regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul. Isso implicaria na degradação acelerada da Mata Atlântica e na perda de mais da metade do Cerrado. Os impactos, segundo ele, afetariam diretamente a produção de alimentos e toda a economia nacional. “Se chegarmos a esse ponto, o Brasil se tornará um país mais pobre”, alerta.
Degradação florestal segue ignorada nas metas
Outro elemento considerado crítico pelos pesquisadores é a ausência da degradação florestal nos relatórios oficiais e nas metas governamentais para COP 30. Um pesquisador do INPE explicou à InfoAmazonia que o Prodes, sistema usado para medir o desmatamento, adota metodologia conservadora: apenas áreas que já perderam mais de 70% da cobertura florestal entram no cálculo anual. Processos graduais, como queimadas recorrentes ou exploração seletiva de madeira, não são contabilizados de imediato.
O problema é que áreas degradadas podem se transformar em áreas desmatadas. A Amazônia historicamente resistiu melhor às queimadas devido à alta umidade, mas secas severas recentes e o avanço do aquecimento global alteraram esse cenário. Uma área que sofre três queimadas consecutivas, por exemplo, pode perder a maior parte da cobertura florestal, só então sendo registrada como oficialmente desmatada.
Dados recentes do Prodes mostram queda de 11% no desmatamento oficial entre agosto de 2024 e julho de 2025 – quando a Amazônia perdeu 5.796 km² de floresta. Por outro lado, a degradação florestal cresceu de forma expressiva: mais de 2,5 milhões de hectares foram degradados em 2024, aumento de 44% em relação a 2023 e de 163% comparado a 2022, segundo estudo publicado na revista Global Change Biology.
Informações internacionais apontam quadro ainda mais grave
Metodologias internacionais reforçam esse cenário. A Universidade de Maryland, por meio da plataforma Global Forest Watch, considera “perda de floresta primária” qualquer impacto que destrua a estrutura original do bioma, incluindo áreas queimadas. Segundo análise da Amazon Conservation, o Brasil perdeu 2.831.503 hectares de floresta primária em 2024, sendo 1,9 milhão atingidos diretamente por queimadas – o maior índice desde 2002.
Os focos de pressão sobre a floresta coincidem com frentes de expansão agropecuária, principalmente ao longo das rodovias BR-163, BR-230, BR-319 e BR-364, distribuídas entre Pará, Mato Grosso, Rondônia, Amazonas e Acre. O fogo também atingiu 751 mil hectares de terras indígenas e mais de 372 mil hectares de unidades de conservação.
Em toda a Pan-Amazônia, que reúne nove países, a perda de florestas primárias alcançou 4,5 milhões de hectares em 2024, sendo Brasil e Bolívia responsáveis por 95% das áreas queimadas. No acumulado desde 2002, o programa MAAP estima que 33,7 milhões de hectares de floresta primária foram perdidos, 10,6 milhões deles afetados pelo fogo.
Os números reforçam a avaliação dos pesquisadores: sem considerar a degradação e sem metas mais rígidas na COP 30, o Brasil corre o risco de comprometer o futuro da Amazônia, dos demais biomas e de sua própria economia.
Fonte: InfoAmazonia
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