O custeio da safra de soja 2025/26 em Mato Grosso atingiu R$ 54,39 bilhões, um crescimento de 8,2% em relação à temporada anterior, segundo dados divulgados pelo Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária (Imea). Nesse ambiente, o sistema financeiro expandiu sua participação para 35,42%, avanço de 5,04 pontos porcentuais sobre o ciclo 2024/25.
De acordo com o instituto, o aumento da soja está associado à revisão metodológica aplicada ao relatório de funding da temporada passada, que passou a incluir linhas próprias de bancos privados, além do redirecionamento da demanda dos produtores diante do encarecimento das linhas federais.
Mesmo com essa expansão, o Imea destaca que o movimento ocorreu “em um ambiente de risco elevado e sob exigências regulatórias mais robustas para mensuração da perda esperada”. As instituições financeiras atuaram com maior seletividade, reforçando garantias e ampliando o uso da alienação fiduciária, mecanismo no qual o produtor transfere a propriedade de um bem ao credor para assegurar o pagamento.
Linhas federais encolhem com juros maiores e seleção mais rígida
Enquanto os bancos ganharam espaço, os recursos oficiais federais via Plano Safra registraram retração significativa. A fatia dessa modalidade caiu para 5,07% do total, redução de 3,59 pontos porcentuais frente à safra 2024/25 da soja.
O recuo reflete três fatores principais:
- juros mais altos nas linhas equalizadas;
- maior seletividade na liberação dos recursos;
- aumento dos riscos percebidos pelo setor financeiro.
O cenário, segundo o Imea, sinaliza menor competitividade das linhas federais no atual contexto de custos elevados e margens pressionadas, o que contribui para a migração dos produtores para outras fontes de funding.
Revendas recuam em meio à crise financeira e recuperação judicial
Um dos pontos mais destacados do levantamento é o forte declínio das revendas de insumos, cuja participação encolheu para 5,25%, queda de 6,20 pontos porcentuais. O instituto atribui essa retração ao enfraquecimento do segmento, marcado por:
- aumento de falências,
- crescimento dos pedidos de recuperação judicial,
- menor capacidade de absorver risco nas operações de barter e crédito comercial.
“Esse recuo decorre da piora das condições financeiras desse segmento”, aponta o estudo.
A redução abriu espaço para multinacionais e grandes tradings, que passaram a absorver parte dessa demanda reprimida.
Tradings avançam e consolidam operações de troca
As tradings e multinacionais alcançaram participação de 30,74%, avanço de 1,89 ponto porcentual, consolidando-se como a segunda maior fonte de financiamento da safra da soja.
Segundo o Imea, a maior capacidade financeira desses agentes permitiu que eles ocupassem o espaço deixado pelas revendas. Além disso, o modelo de financiamento por trocas — o barter — se fortaleceu. “Esse movimento consolidou estratégias comerciais baseadas em trocas, contribuindo para mitigar o risco operacional”, destaca o levantamento.
Autofinanciamento cresce, mas reduz liquidez no campo
O autofinanciamento representou 23,51% do custeio, aumento de 2,84 pontos porcentuais. O instituto explica que parte desse avanço decorre da maior utilização de capital próprio, mas também de compras à vista feitas com base na receita da safra 2024/25 para aquisição de insumos da temporada seguinte.
Esse comportamento tem impacto direto na disponibilidade de caixa no campo: “Esse mecanismo, contabilizado como autofinanciamento, reduz a liquidez efetiva disponível nas propriedades”, alerta o Imea.
Área plantada cresce pouco e reflete margens pressionadas
A área de soja prevista para Mato Grosso na safra 2025/26 é de 13,01 milhões de hectares, aumento discreto de 1,67%. Para o instituto, o crescimento modesto indica um ambiente marcado por “preços pouco atrativos, custos de produção elevados e taxas de juros em patamares altos”, o que limita a expansão.
O custeio médio por hectare da soja saltou para R$ 4.181,26, aumento de 7,08%. Entre os itens com maior impacto estão:
- fertilizantes (+9,36%),
- defensivos (+4,73%),
- serviços (+16,22%), que tiveram a maior variação relativa.
O único insumo com queda foi o item sementes, com recuo de 10,47%.
Perspectiva para 2026/27 aponta leve queda de custos
A primeira projeção do Imea para a safra 2026/27 da soja indica redução de 0,54% nos custos de produção, influenciada pela queda nos preços de sementes e fertilizantes, especialmente dos macronutrientes. Alguns produtores já iniciaram a compra antecipada desses insumos, sinalizando expectativa de custos menores no próximo ciclo.
Ainda assim, o cenário segue desafiador: “As perspectivas apontam para um cenário mais desafiador, considerando a menor disponibilidade de recursos próprios dos produtores e a necessidade crescente de participação do sistema financeiro”, conclui o instituto.
Risco de crédito deve aumentar a cautela dos bancos
O Imea também alerta que o aumento da inadimplência e o maior número de recuperações judiciais no setor podem levar os bancos a adotar critérios ainda mais rígidos. Nesse contexto, instrumentos como a Cédula do Produtor Rural (CPR) seguem essenciais para viabilizar o custeio e dar sustentação ao fluxo de capital no agronegócio mato-grossense da soja.
Fonte: Estadão
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